O essencial e o acessório

Vivemos tempos em que, na maioria das vezes, se confunde o essencial com o acessório e a este se dá primazia. Tratando-se de dois conceitos subjectivos, acredito que a inversão de prioridades não seja propositada mas, apenas e só, uma visão diferente da realidade.

Ao longo de vários anos, enquanto autarca mas, sobretudo, enquanto cidadão preocupado com o futuro do meu concelho, critiquei a falta de empenho das sucessivas maiorias socialistas no que toca à captação de investimentos para Almeirim. Dei, no início do presente mandato autárquico, o benefício da dúvida ao executivo no que a este aspecto diz respeito. E fi-lo, acima de tudo porque, apesar de não partilhar a mesma filiação partidária, ter julgado que a eleição dum presidente de câmara jovem permitisse alargar os horizontes e ver mais além. Quase quatro anos depois, confesso que me enganei. Estes últimos anos foram mais do mesmo a que já estávamos habituados: aquisições, projectos, obras, inaugurações, anúncios de obras que vão durar um mandato (há que fazer render o peixe…). Sobre o que é verdadeiramente importante para o desenvolvimento sócio-económico do município, muito pouco. Têm-se mantido a aposta na gastronomia mas, na minha opinião, isso não é suficiente. Tem de haver uma maior diversificação no que toca à criação de riqueza.

Creio que não ser necessária uma especialização em economia para se conhecer os benefícios do investimento empresarial: criação de postos de trabalho, fixação e rejuvenescimento da população, aumento do consumo, entre outros… Por exemplo Almeirim, por força da não captação de investimento empresarial, está a tornar-se um concelho envelhecido. Vejamos alguns dados estatísticos interessantes que podem ilustrar esta afirmação:

  • No período compreendido entre 2009 e 2015, houve uma diminuição na população residente no concelho de Almeirim (de 23.231 em 2009 para 23.169 em 2015);
  • Ainda assim, a percentagem de jovens com menos de 15 anos de idade diminuiu e a população idosa (com mais de 65 anos) aumentou;
  • A relação entre o número de idosos por cada 100 jovens aumentou de 134 em 2009 para 161 em 2015;
  • Se, em 2009, existiam, 3.1 indivíduos em idade activa para cada idoso, esse rácio era, seis anos depois, de 2.6.
  • O saldo natural, isto é, a diferença entre os óbitos e os nascimentos tem sido negativo. Aqui, morre-se mais do que se nasce…

Isto é um claro sinal de que o concelho de Almeirim tem uma população envelhecida e que não tem havido a capacidade para reverter esta realidade. Aliás, isso está bem patente na notícia publicada na última edição de “O Almeirinense” sobre os Censos Sénior realizados pela Guarda Nacional Republicana.

Aqui ao lado, em Coruche, e ainda que padeça dos mesmos males da interioridade, parece haver uma tentativa de dinamizar o desenvolvimento económico concelhio com a captação de empresas. Talvez tenha passado despercebido à maioria, mas a partir de Julho ou Agosto deste ano vai estar a laborar em Coruche uma fábrica que irá produzir o primeiro telemóvel português, estando prevista a criação de 30 a 40 postos de trabalho (mão-de-obra especializada) para um investimento estimado em 1.6 milhões de euros. Será que Almeirim não terá as mesmas (ou até melhores) condições para instalar empresas deste tipo? Será que vamos ficar eternamente dependentes da Sumol+Compal no que à criação de emprego diz respeito? Será que os nossos jovens licenciados terão sempre que optar entre trabalhar (e residir) fora de Almeirim ou serem caixas num qualquer hipermercado (sem desprimor para a função)? Não seria tempo dos nossos decisores políticos olharem mais para o longo prazo e não para os quatro anos seguintes? Não será altura de colocarem o desenvolvimento do seu concelho à frente da sua re-eleição?

Como já referi nos textos anteriores, o percurso para as próximas eleições autárquicas será um passeio triunfal para o Partido Socialista e para o actual presidente do Município. Durante o mandato não teve oposição à altura e, sendo a política a arte de governar, tem feito política no sentido estrito do termo: Almeirim tem um verdadeiro artista a comandar os seus destinos. Não no sentido depreciativo da expressão, mas alguém que tem a arte de fazer prevalecer a sua visão e os seus ideais de forma quase inquestionável, transformando o que é acessório em essencial.

Nota de rodapé: Fazendo fé no que foi noticiado pelo Almeirim 2017, questiono-me sobre o que terá levado o presidente do PSD de Almeirim a escolher, como cabeça-de-lista à Câmara Municipal, uma pessoa cuja única relação com o nosso concelho foi o facto de aqui ter residido até aos 10 anos?

humbertoneves@gmail.com'

Foi presidente do PSD Almeirim entre 2004 e 2007 e candidato à Junta de Freguesia de Almeirim em 2005 e 2009. Integrou a Assembleia de Freguesia de Almeirim entre 2002 e 2013.

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2 Responsesto “O essencial e o acessório”

  1. […] (publicado originalmente na página Almeirim 2017) […]

  2. xarneco1@gmail.com' Carlos Bento diz:

    Caro Humberto Neves, e’ disto que espero ha’ algum tempo, cidadaos que possam injectar descontentamento na vida social da sua/nossa terra, sem preconceito, odio ou clubismo partidario, opinar sem receio, demonstrando desembargamento do poder. Alguns anos ausente do concelho, leio no rosto dos municipes, medo de comentar ou mostrar no minimo, lamento pelo que nao se faz e pelo que nao se faz sem transparencia, da qual ninguem questiona e quase todos se contentam. Gostei do seu artigo, parabens.

    • Caro Carlos Bento, obrigado pelas suas palavras.
      É mais fácil criticar um qualquer governo central (principalmente quando impõe medidas de austeridade e que está lá longe, em Lisboa) do que um governo local (que está perto de nós, mesmo que não promova o desenvolvimento sócio-económico do seu município). Os munícipes continuam a ver o poder local como algo “sagrado”, que não se pode contrariar sob pena deles serem alvo da ira dos “deuses”. Eu diria que é, apenas e só, o reflexo de se terem confundido “maiorias absolutas” com “poder absoluto”!

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