Aclamações Autárquicas

Chegámos mais uma vez, imperceptível e paulatinamente, ao incrível tempo das pré-autárquicas: palco principal de quem quer aparecer, tempo formal e refreado de quem já muito aparece. Só agora começa o jogo, isto porque, seja pela partidarização sólida do poder local, pela inexistência de oposição ou até pela sempre inocente – mas eficaz e visível – domesticação da imprensa, contam-se pelos dedos das mãos as ideias, denúncias ou contributos que nos últimos três anos entraram pela nossa porta dentro.

A diferença é visível e abismal: de quem está, uma comunicação organizada e eficiente; de quem quer estar, uma imensa dificuldade em passar ideias ou crítica séria. Já de quem é chamado a decidir, na sua maioria, o maniqueísmo do costume: o alheamento à política ou os bons velhos óculos de cabedal.

Interessará mais à oposição, por tudo isto e mais ainda, fazer uma análise ao que não se passou e não se fez, em vez de escamotear obras e obrinhas durante meses, deificando quem é pago para as fazer ou criticando vagamente projectos à medida da opinião pública.

É que a política autárquica é, para todos os efeitos e soundbites, a política da proximidade. Essa concepção, aliada à ideia simples e redutora de que quem “deixa obra” é bom, quem a não faz não serve, leva-nos sem demoras a concluir que, ao nível local, a política vale mais pela quantidade – se fez é bom, não fez é mau – do que propriamente pela qualidade do que se faz. Além disso, a velha tese – da qual discordo em absoluto – de que nas terras não conta o partido, serve apenas para muitos, refugiados no culto da pessoa, exaltarem nos candidatos qualidades que não existem ou defeitos largamente exagerados.

Sabendo de tudo isto, resta descobrir então, ao iniciarmos esta caminhada de fim já certo, porque diabo conseguem uns mostrar ideias e passar mensagens (mesmo que não as tenham) enquanto outros deviam, com esforço e empenho redobrado, oferecer por todas as vias possíveis, um vislumbre de vida ou existência política.

E porque quem o não fez em 3 anos, dificilmente o fará em 6 meses, resta-nos agora esperar por uma de duas soluções: ou um candidato surpresa, que aceite combater tudo isto em tão curto espaço de tempo ou meia dúzia de candidaturas forçadas, saídas provavelmente, de um qualquer pontapé na calçada.

Reconheçamos de cabeça erguida que pagaremos outra vez, nestas autárquicas, um preço cada vez mais óbvio: uma aclamação disfarçada de eleição, onde o que triunfa, no final das urnas viradas, é a maquilhagem democrática que alegremente nos intoxica de 4 em 4 anos e nos espeta na cara o sorriso irritante de tantos servis que, sem saberem bem o que querem, ficam apenas com o que já têm.

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